AGÊNCIA ENTREVISTA: Especialista dá dicas de como educar os filhos em um mundo cercado de tecnologias

Repórter Marquezan Araújo

De acordo com levantamento do Comitê Gestor da Internet, 80% das crianças com idade ente 9 e 17 anos fazem uso da internet. Até aí tudo bem. O problema é que, segundo essa pesquisa, 21% das pessoas dentro dessa faixa etária deixam de comer ou de dormir por causa da web. Quem comenta sobre essa questão é a coordenadora clínica do Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC), Aline Frasson.

Uma coisa notável no mundo atual é a presença das tecnologias virtuais na vida das pessoas, seja pelo computador, tablet ou celular, além de outras plataformas. Esse fato pode implicar na maneira de os pais educarem seus filhos? Eles podem passar por alguma dificuldade?

“Eles passam porque é uma fonte de distração muito grande. É uma fonte de prazer e recompensa imediata muito grande e muito disponível também. Então, a criança tem acesso ao mundo lá fora a partir da tecnologia. E, são muitas coisas legais que elas podem acessar e que trazem uma recompensa imediata. Às vezes fica difícil para os pais conseguirem concorrer com esse tipo de tecnologia, devido aos inúmeros estímulos que eles oferecem, os aplicativos, tablets, os jogos.”

De qualquer forma, você avalia que os pais não podem proibir totalmente o uso da internet, mesmo que isso represente um grande desafio na educação dos filhos?

“A tecnologia tem as suas vantagens. Muitas tecnologias são usadas para pesquisa, existem aplicativos que são usados para criança que tem dificuldade de aprendizado, existem aplicativos usados até pelas próprias escolas que complementam o conteúdo que foi repassado na sala. Mas, a gente tem que se atentar para as desvantagens, que são inúmeras. Por exemplo, por conta dessa questão de ser um prazer imediato, uma recompensa imediata, as crianças estão em fase de amadurecimento e elas podem ter dificuldade para realizar o controle inibitório das emoções. Por consequência, a criança se torna impulsiva e com baixa resistência à frustração, além de ansiedade, de prejudicar o sono, atenção, a alimentação, o rendimento escolar.”

Teria alguma idade adequada para uma criança começar a fazer uso dessas tecnologias, seja das redes sociais ou jogos virtuais interativos?

“Acho que é muito relativo. Mas sim, colocar limites. Então, se naquele momento for saudável para a criança, se ela teve um comportamento adequado e se de alguma forma os pais quiserem reforçar aquele comportamento adequado, disponibilizando um horário para ela ficar no computador, ficar nas redes sociais, ok, mas desde que isso não substitua atividades importantes que a criança precisa praticar. A tecnologia inibe muito essa parte, porque as crianças ficam muito sob o controle daquele reforço imediato, daquilo que está acontecendo naquele momento e perde algumas habilidades de socialização, de tomar iniciativa, de criatividade, que são importantes para o desenvolvimento dela.”

Os pais também podem ser culpados quando os filhos fazem mau uso da internet ou das tecnologias digitais de maneira geral?

“Então, os pais precisam ser firmes e também serem modelos. Porque às vezes os pais ficam no computador, no celular no táblet e não proveem a atenção e a disponibilidade para o filho, num momento que seria importante. Ou também disponibiliza a tecnologia para o filho se distrair. Às vezes o pai chega cansado em casa, sem condições de dar atenção para o filho, e acaba disponibilizando a tecnologia e o filho acaba se distraindo e reforçando um comportamento que nem é para reforçar. Então é importante que os pais sejam modelos e também coloquem limites.”

De que forma os pais podem agir fora do ambiente doméstico? Por exemplo, quando a família for almoçar fora ou passar o dia no parque.

“Levar outros materiais, ajudar a criança a estimular mais aquele ambiente, porque existem alguns ambientes que são propícios para isso. Eles têm o parquinho, têm lápis de cor, livrinhos, papéis para fazer desenhos. Então que os pais ajudem a criança a explorar mais esse ambiente, auxiliem a criança a fazer amigo, a interagir com as crianças que estão brincando lá, para que a criança consiga desenvolver outras habilidades importantes, não só ficar ali no celular, o que é mais fácil.”

Que outro ponto negativo você destaca em relação ao uso exagerado das tecnologias virtuais?

“A gente vem atravessando um ‘emburrecimento’ tecnológico. Ou seja, é como se a gente tivesse realmente ficando sob o controle da facilidade do aplicativo, e deixando de ficar sensível ao nosso mundo ao redor, de a gente conseguir resolver nossos problemas, nossas dificuldades que a gente encontra no ambiente de forma mais sensível ao que está acontecendo e sensível às conseqüências que a gente produz no ambiente. Então, se a gente for pegar o próprio exemplo do Waze, que é um aplicativo que nos leva a onde a gente quiser. A gente fica sob o controle do aplicativo e muitas vezes a gente não explora o que está acontecendo no caminho. A gente às vezes não para e observa uma paisagem diferente ou uma pessoa que está passando na rua e explorar uma séria de outras coisas que, muitas vezes já temos disponíveis nos aplicativos.”