É um equívoco abater as onças da Caatinga

Estudo desenvolvido na USP em Piracicaba investiga as relações com a fauna silvestre

Onça Parda

Abril é o mês em que se celebra o Dia da Caatinga (28), bioma brasileiro localizado predominantemente na região Nordeste do País, caracterizado por longos períodos de seca e uma grande biodiversidade.
Um estudo desenvolvido no programa de Pós-graduação Interunidades em Ecologia Aplicada (Esalq/Cena) da USP em Piracicaba investigou as relações que pessoas estabelecem com a fauna silvestre, com foco nas onças-pintadas (Panthera onca) e onças-pardas (Puma concolor), no semiárido do nordeste do Brasil.
“Nosso foco foi uma região de Caatinga, decretada como mosaico de unidades de conservação em Abril de 2018 – Parque Nacional e Área de Proteção Ambiental do Boqueirão da Onça”, conta a autora do projeto, engenheira agrônoma Claudia Martins.
Segundo a pesquisadora, no sertão é recorrente tratar as interações com a fauna silvestre do ponto de vista utilitarista, dependendo do grupo em causa, para consumo, medicina, ornamentação ou pet.
“A caça, apesar de ser ilegal no Brasil, é comum também no sertão, é aceite e às vezes, necessária, principalmente para pessoas e comunidades que não têm acesso a proteína animal por questões financeiras”.
De acordo com Claudia, a caça é vista como uma relação predador-presa, onde o homem é o único predador das onças, carnívoros predadores topo de cadeia em ambientes naturais, e compete com estas quando se trata de caçar tatus, veados, cotias, pacas, caititus e outros.
“Minha linha de pesquisa agregou outras variáveis além das variáveis socioeconômicas, para justificar o declínio das populações de onças (e suas presas)”, complementa.
Convivência
Da vivência que a pesquisadora tem na região, ela afirma que ao mesmo tempo em que criadores de caprinos e ovinos vêm na onça uma ameaça ao seu modo de vida e sobrevivência, caçam onças por retaliação à predação, também reconhecem, em sua maioria, que elas por serem carnívoras, precisam comer e alimentar seus filhotes, e têm direito à vida como qualquer outra espécie.
“Além disso, esses animais têm visto suas áreas de vida diminuir muito em resultado de atividades humanas, como desmatamento e fragmentação de habitats, mineração, queimadas, novos usos do solo e do território para instalação e operação de complexos eólicos e fotovoltaicos, com supressão de vegetação e abertura de estradas em lugares remotos”, detalha Claudia.

A pesquisa inicia identificando as motivações por trás do abate de animais silvestres. “Há uma lista de motivos que levam a esse abate, sejam sentimentos de medo, de percepção de risco devida à proximidade ou características da espécie, de retaliação por dano à sua propriedade, por desconhecimento ou desacordo com instituições que fazem manejo de fauna silvestre ou conflito com outras pessoas, crenças errôneas sobre biologia e ecologia das espécies, suporte ou estímulo social para comportamento de caça, hábitos ou costumes que mantêm essa relação de direito da espécie humana sobre a vida de outras espécies”.
Amigos da onça
Claudia integra, há alguns anos, a equipe do único programa de conservação de onças-pintadas e onças-pardas no nordeste do estado da Bahia (Programa Amigos da Onça). “Temos feito um esforço de interferir, a partir da vontade expressa dos residentes na região, em hábitos culturais ligados ao manejo extensivo dos rebanhos e às interações com a fauna silvestre”.
Ela conta que assim foram construídos, em duas comunidades do Boqueirão e em parceria com a Tetra Pak® Montemor, SP, 18 currais à prova de ataque de onça, como a materialização do compromisso do criador em não deixar os seus animais dormir ao relento. “Durante a noite ficam totalmente expostos a várias ameaças inclusive ao ataque do predador, que é furtivo e mais ativo no horário mais fresco”, destaca. E segundo a agrônoma, a ação já traz indicativos de mudança. “Essa mudança é efetiva na proteção dos rebanhos, e esse cuidado com as pessoas que partilham território com as onças reduz sua sensação de vulnerabilidade e facilita a mudança de comportamento e atitudes”.
Ética
É este contexto de trabalho e pesquisa que levou Claudia a expor vários desafios éticos, durante o curso de Verão “Ethics in a global context”, realizado em junho de 2019, na Universidade de Lucerne, Suiça. “Podemos afirmar que nossa sociedade atual, que almeja cumprir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), é ética quando mantém quadros legais frágeis que consentem com a implantação de complexos de geração de energia de base renovável em áreas naturais e não em regiões já sujeitas a algum grau de degradação?”, questiona a pesquisadora.
Durante a permanência no país europeu, Claudia pode dialogar com colegas suíços, irlandeses, norte-americanos, alemães, nigerianos, palestinos, indianos, trabalhando nas áreas de saúde pública, ciência política, relações internacionais, música, educação, engenharia da computação, assistência social, agricultura e conflitos-humanos-fauna silvestre. E questionou-se sobre qual é a ética possível para conciliar a conservação da natureza com a qualidade de vida de todos os humanos no Planeta?
“Não trouxe respostas do curso de Verão, mas me senti honrada e privilegiada por pode mostrar fora das fronteiras do Brasil um Brasil menos badalado e frequentemente subestimado, em relação às riquezas da sua biodiversidade e grupos sociais e suas culturas, como é a Caatinga”.
Texto: Caio Albuquerque
Imagens: Arquivo pessoal da autora

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